Prof. Ramon Cosenza
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Estilo de Vida

Saúde Positiva e o Estilo de Vida

29 de março de 2026

O avanço do conhecimento mostra, cada vez mais, as vantagens da adoção de um estilo de vida saudável, que deveria ser um objetivo buscado por todos, nos dias que correm. Mas, é claro que nossa saúde não é influenciada apenas por nossas escolhas pessoais, pois muitos fatores podem intervir. A herança genética, o ambiente social, o clima, a qualidade do ar que respiramos são exemplos desses outros fatores a que estamos sujeitos permanentemente. Somos seres biológicos profundamente integrados com o nosso entorno. Em uma visão sistêmica, corpo, mente e ambiente representam um sistema integrado que, sob a coordenação do cérebro, está sujeito à interação do ambiente interno (biológico e mental) com o ambiente externo (social, físico, ecológico), de tal maneira que alterações em qualquer de suas partes provoca repercussões nas demais partes componentes.

Sabemos, por exemplo, que existe uma relação bidirecional entre bem-estar subjetivo e saúde física. A saúde precária geralmente leva à redução do bem-estar subjetivo, enquanto altos níveis de bem-estar podem reduzir os comprometimentos da saúde física. O bem-estar parece contribuir para o funcionamento eficaz de muitos sistemas biológicos e isso pode ajudar a aumentar a resistência a enfermidades, além de promover uma recuperação rápida diante de doenças ou adversidades. Evidências mostram que o bem-estar subjetivo está associado a uma sobrevida mais longa e estados positivos, como o otimismo, podem estar associados ao aumento da longevidade. Nesse contexto, o estilo de vida adotado pode fazer grande diferença.

Aquilo que percebemos e a forma como pensamos podem impactar nossa biologia, assim como os ambientes que habitamos podem modificar nossos processos mentais e fisiológicos. Os seres vivos existem em uma dança fascinante e infinitamente complexa com a natureza e um desequilíbrio em qualquer um desses componentes pode impactar de forma negativa a saúde física/mental.  Em meio a essa complexidade, a adoção de um estilo de vida saudável, pode contribuir de forma efetiva, aumentando a probabilidade de manutenção da saúde ao longo de nossas vidas.

Contudo, a visão sistêmica que acabamos de descrever ainda é pouco conhecida em nosso meio. A visão tradicional considera mente e corpo como unidades distintas, separa a saúde física da saúde mental e cria uma dicotomia entre saúde e doença. Mais ainda, o modelo biomédico tradicional se ocupa muito mais com o tratamento das doenças do que com a promoção da saúde. Portanto, há ainda um longo caminho a percorrer.

A Saúde Positiva (SP) é um conceito recente que prioriza os fatores que promovem o bem-estar ao longo da vida, sem desconsiderar as causas de doenças e do envelhecimento. Ela aponta para a necessidade de uma abordagem que contemple os fatores individuais, coletivos e ambientais que interagem sistemicamente. O avanço do conhecimento tem proporcionado a descoberta de novos sistemas e mecanismos fisiológicos, como o eixo microbioma-intestino-cérebro, a epigenética, a psiconeuroimunologia, ou a existência da chamada metainflamação. Tudo isso proporciona novas maneiras de pensar sobre as interações mente-corpo-ambiente na saúde e na doença, e aponta novos caminhos para intervenções que visem a preservação da saúde.

A Saúde Positiva (SP) é um nova perspectiva, particularmente bem-vinda porque assistimos a  uma incidência crescente das doenças não infecciosas crônicas, ligadas ao estilo de vida e amplificadas pelo envelhecimento da população decorrente do aumento da longevidade. Sabemos com clareza que a grande maioria das doenças crônicas e mortes prematuras poderia ser prevenida por meio de mudanças comportamentais.

O conceito de Saúde Positiva nos alerta para o risco de dar ênfase excessiva à responsabilidade individual na manutenção da saúde. Ela nos convida a reconhecer que os fatores ambientais desempenham um papel significativo na sua formação. A responsabilidade de cultivar uma perspectiva e uma prática positiva em saúde não depende apenas dos indivíduos interessados. Governos (locais, regionais e nacionais), organizações não governamentais, empregadores e grandes corporações, bem como serviços e sistemas de saúde, deveriam adotar estratégias semelhantes, que sejam coerentes com os princípios da Saúde Positiva.

A Saúde Positiva é um objetivo, ou ponto de chegada, mas é também uma jornada. Como destino ela representa o ápice do desenvolvimento físico, mental, social e ambiental a que podemos aspirar. Como jornada, ela reflete o fato de que, ao longo da vida, nos movimentamos ora nos aproximando e ora nos afastando daquele objetivo, dependendo de nossas escolhas mas também do ambiente e das condições a que estamos sujeitos. A SP enfatiza a importância de manter esse delicado equilíbrio, reconhecendo que nosso bem-estar é profundamente integrado ao nosso entorno.

(Trecho de capítulo do livro:

“COSENZA, RM (2026) Estilo de Vida – Saúde Positiva e o Bem-Estar. Ed. Ampla”)

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