Prof. Ramon Cosenza
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Mindfulness

Mindfulness, o Estoicismo e a Meditação

28 de novembro de 2025

Mindfulness, ou a Atenção Plena, é um dos recursos mais importantes de que podemos lançar mão no cotidiano, visando uma existência plena. Ela nada mais é que prestar atenção ao momento presente, com abertura e aceitação. Essa prática desenvolve a atenção voluntária, ou atenção executiva, que nos permite desenvolver a capacidade de autorregulação, a habilidade de escolher conscientemente nossos objetivos e as estratégias para implementá-los. Sem atenção executiva – que mobiliza a cognição consciente - estamos condenados a funcionar no piloto automático. Não regulamos nossas escolhas, não podemos raciocinar criticamente, reagimos simplesmente aos estímulos, presos aos processos de gratificação imediata.

Mindfulness hoje passa por uma grande onda de interesse, que a partir dos anos oitenta, nos EUA, espalhou-se por todo o mundo ocidental. Como sabemos, essa onda teve origem numa intervenção, chamada de MBSR (Redução do Estresse Baseada em Mindfulness) idealizada por Jon Kabat-Zinn, um acadêmico americano com formação budista. Ela foi muito bem-sucedida na redução do estresse e no manejo de problemas crônicos de saúde, o que desencadeou um grande número de estudos científicos para descobrir as razões do seu sucesso.  Essa notoriedade, fez também com que a maioria das pessoas associasse automaticamente mindfulness com o budismo.

Ocorre que a importância de desenvolver a atenção voltada para o momento presente não é uma descoberta solitária do budismo. Todas as práticas de meditação, hoje sabemos, são formas de desenvolvimento e cultivo da atenção. E elas existem em muitas tradições espirituais: hinduísmo, taoismo, budismo, judaísmo ou cristianismo. Por outro lado, a atenção ao momento presente também tem sido repetidamente recomendada, mesmo nos círculos acadêmicos ocidentais. Ellen Langer, por exemplo, uma psicóloga e pesquisadora americana, tem sido chamada de a “mãe do mindfulness”, por seu pioneirismo em recomendar a atenção ao momento presente e por seus estudos que mostram a sua importância e seus muitos benefícios.

Mas o desenvolvimento da atenção plena, por si só, acaba por ser uma tarefa incompleta. Aumentamos nossa capacidade de autorregulação e então precisamos saber o que fazer com ela. Ou seja, mindfulness deve estar integrada em um arcabouço, um conjunto de valores que nos oriente para onde nos dirigir ao longo da vida. No budismo, isso é complementado por uma visão do mundo e um conjunto de preceitos, por uma ética (ver, por exemplo, as quatro verdades nobres ou o caminho óctuplo). Mais uma vez, no entanto, esse arcabouço, ou contexto, pode ser encontrado por meio de outras perspectivas. Eu gostaria de chamar a atenção para uma dessas abordagens - para uma filosofia de vida que floresceu entre os gregos e romanos antigos e que hoje encontra um renascimento no mundo moderno: o estoicismo.

O estoicismo é realmente uma “filosofia de vida”, ou seja, uma visão de mundo que vem acompanhada de um conjunto de orientações e práticas para o cotidiano, visando a integração do indivíduo no seu mundo, tornando-o uma pessoa melhor. Os estoicos recomendam, basicamente, que vivamos de acordo com a natureza. Para eles, nossa natureza é a de sermos seres racionais e sociais, portanto devemos desenvolver e exercer essa capacidade racional, visando o bem social comum.

Segundo o estoicismo, devemos buscar a eudaimonia, o ideal grego de procurarmos conhecer a nós mesmos e desenvolver a excelência dos nossos talentos. Satisfazer o “bom espírito” (ou “bom demônio”) que habita em nós. Essa busca pela excelência é que deveria orientar a vida de cada um de nós e a atenção plena torna-se um instrumento poderoso para atingir esse objetivo.

No dia a dia do estoico deve haver o cultivo da atenção (prosochê) e para isso foram criadas práticas espirituais análogas à meditação, embora não sejam chamadas com esse nome. Há um claro paralelismo em muitas das proposições dos budistas e dos estóicos - uma ética, com muitos pontos em comum - embora a visão do mundo, ou metafísica seja muito diferente no budismo e no estoicismo.

Um dos pensadores estoicos mais importantes, cujas anotações chegaram até nós é o imperador romano Marco Aurélio (121-180DC). E ele nos diz:

“Vivemos apenas no presente: este momento fugaz. O que passou está perdido atrás de nós e à nossa frente há apenas uma promessa, que pode nunca se realizar. O breve momento presente é tudo o que podemos viver”.

Epiteto (50-138DC), outro mestre do estoicismo nos orienta dizendo:

“Não são as coisas ou os eventos em si que nos perturbam, mas apenas os nossos julgamentos sobre eles.”

Ou seja, temos aqui recomendada a fórmula acabada de mindfulness: prestar atenção ao momento presente, de forma aberta e sem julgamentos.

Além disso, Seneca (4-65DC), outra fonte de inspiração estoica, escreveu:

“Nada, na minha opinião, é uma prova melhor de uma mente bem-organizada do que a capacidade de um homem de parar exatamente onde está e passar algum tempo em sua própria companhia.”

Uma recomendação para deixarmos de lado o modo fazer e nos dedicarmos, periodicamente, ao modo ser, ou seja vivenciarmos uma atividade contemplativa. Preferencialmente, atentos e conscientes ao que estivermos vivenciando.

O estoicismo é associado no imaginário comum a uma atitude de impassividade ou insensibilidade aos infortúnios e às emoções. Mas essa é uma visão estereotipada e incorreta, pois, na verdade, o estoicismo prega um envolvimento contínuo com o meio social e uma ação efetiva visando o bem comum. Para os estóicos, as virtudes fundamentais são a sabedoria (saber o que é correto), a coragem (fazer o que é correto), a justiça (tratar a todos com generosidade e equanimidade) e a moderação (agir de forma equilibrada, fugindo dos extremos). Poderíamos atribuir ao estoicos a famosa prece da serenidade:

“Que eu tenha a serenidade de aceitar as coisas que não posso mudar, que eu tenha a coragem para mudar aquilo que pode ser mudado, que eu tenha a sabedoria para distinguir corretamente uma coisa da outra”.

Na verdade, um dos pilares do pensamento estoico é a chamada “dicotomia do controle”, que recomenda que devemos nos preocupar apenas com aquilo que podemos realmente influenciar. O que está fora do nosso alcance de resolução é tido como indiferente, pois não é isso que nos torna melhores pessoas. Isso pode ser compreendido pela “metáfora do arqueiro”, como descrito por Cicero (106 – 43 AC) político e filósofo romano. Segundo essa metáfora, o arqueiro não deve se preocupar com o resultado do disparo de sua flecha, porque isso não está sob seu controle. O que ele pode fazer é escolher o melhor arco, a melhor flecha e exercitar-se para ser o melhor arqueiro. Mas, uma vez disparada a flecha, muitas coisas podem acontecer e isso escapa à sua determinação, portanto não deve ser objeto de preocupação. A dicotomia do controle é um instrumento eficaz para levarmos a existência com mais serenidade, e mindfulness pode ajudar na sua consecução.

O estoicismo, depois de um longo período de ostracismo, experimentou um renascimento no século XX, e nesse contexto, serviu de inspiração para técnicas terapêuticas reconhecidamente eficazes no campo da psicologia. Albert Ellis, o criador da chamada Terapia Comportamental Emotiva Racional (REBT) e Aaron Beck, pioneiro da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) reconheceram em seus escritos, que o estoicismo foi a principal inspiração filosófica para suas abordagens. Essas terapias são usualmente associadas à Atenção Plena, ou Mindfulness, mas é bom lembrar que elas foram desenvolvidas ainda nos anos 1960 e 1970, portanto antes do aparecimento e da explosão das intervenções baseadas em mindfulness, com inspiração budista.

Ainda em relação às emoções,  os estoicos acreditavam que elas podem ser reguladas no dia pela maneira como reagimos a elas:

“Quando você está angustiado por uma coisa externa, não é a coisa em si que o incomoda, mas apenas seu julgamento sobre ela. E você pode acabar com isso a qualquer momento” (Marco Aurélio – Meditações).

É interessante aqui o paralelismo com a maneira como os budistas abordam o problema, com a parábola das duas flechas. Quando você é atingido por uma flecha, há uma dor inevitável, que irá piorar, dependendo da maneira que você reage a esse infortúnio. Ou seja, sua reação ou julgamento pode acrescentar uma segunda flecha, que traz um sofrimento real. Mindfulness pode, nesses casos, permitir a criação de um espaço não reativo, que traz serenidade e a opção de construir percepções e respostas mais adequadas.

Um aspecto interessante da filosofia estoica é que ela tem como um dos seus preceitos o cosmopolitismo, a crença de que todos os seres humanos são habitantes da mesma cosmópolis e todos devem ser tratados com justiça, com respeito e equanimidade. Os estoicos afirmam que todos nascemos com uma tendência natural a gostarmos de nós mesmos e a nos preservarmos. Como somos seres sociais e dependemos fortemente do círculo social mais íntimo, esse sentimento é facilmente estendido aos membros de nossa família e àqueles que nos são próximos. É o que se chama de oikeiosis.

Contudo, não é tão natural ter o mesmo afeto para com as pessoas mais distantes, os membros de outros grupos ou aqueles de culturas diferentes. Mas os estoicos acreditavam que devemos procurar estender a oikeiosis a todos os seres humanos e tinham práticas espirituais para cultivar esse objetivo. É interessante notar o paralelismo dessas práticas estoicas com as práticas contemplativas de amorosidade – (loving-kindness, ou Metta) desenvolvidas pelo budismo, que são incorporadas rotineiramente nas Intervenções Baseadas em Mindfulness na atualidade.

Os estoicos não tinham as práticas de meditação utilizadas  atualmente, mas tinha exercícios - ou práticas espirituais - para desenvolver as habilidades que julgavam importantes no seu cotidiano. Uma dessas práticas era “a visão do alto”, em que imaginavam uma perspectiva que seria a dos deuses, no alto do Monte Olimpo, observando tudo o que ocorria no mundo à sua volta. Claro que os estoicos não conheciam a possibilidade de observar o planeta a partir do espaço, como o fazem os astronautas, mas podemos criar essa perspectiva, modificando a prática proposta por eles. Sugiro que imitemos os estoicos nessa “prática espiritual”.

Uma prática contemplativa inspirada nos estóicos,  que visa aumentar a afinidade e a amorosidade por todos os seres humanos:

  • Feche os olhos e reserve alguns momentos para relaxar todo o corpo.
  • Preste atenção à sua respiração. Respire profundamente por alguns ciclos, fazendo que você se situe no momento presente, no aqui e agora.
  • Procure agora focar a atenção em seu espaço mental. Vamos fazer uma prática de visualização.
  • Imagine, ou procure visualizar, um círculo de luz envolvendo seu corpo.  Reserve alguns momentos para imaginar que ele simboliza um sentimento crescente de afeição e cuidado por você mesmo - como um ser racional, capaz de sabedoria e virtude.
  • Agora imagine que esse círculo está se expandindo para abranger membros de sua família, ou outras pessoas que são muito próximas a você, por quem você sente uma afeição natural, como se de alguma forma fizessem parte do seu próprio corpo.
  • Em seguida, imagine esse círculo se expandindo para abranger as pessoas que você encontra na vida diária – conhecidos, trabalhadores dos lugares que você frequenta, talvez colegas de trabalho - e projete sentimentos de afeto natural por eles, como se fossem membros de sua própria família.
  • Novamente, deixe o círculo se expandir ainda mais para incluir, pouco a pouco, as pessoas da cidade, da região e todos do país onde você vive. Imagine que seus sentimentos de afeto estão se espalhando para eles.  Reconheça que todos são seres racionais semelhantes a você e capazes de iguais sentimentos, necessidades e virtude.
  • Imagine o círculo agora crescendo para envolver o mundo inteiro e todos os seres humanos como uma só unidade, permitindo que seus sentimentos de afeição se espalhem para todos os outros membros da raça humana, desenvolvendo um senso de parentesco com eles, na medida em que, como você, eles possuem razão e sentimentos, são seres sencientes com a capacidade de progredir em direção à sabedoria e a desfrutar de uma vida plena.
  • Visualize o planeta Terra, como é visto pelos astronautas, no espaço. Perceba que de lá não visualizamos fronteiras. Todos os países fazer parte do mesmo todo. Imagine as pessoas que vivem nesses países, interagindo para viver melhor e em paz, sem desavenças políticas ou religiosas.
  • Imagine que todos podem viver no momento presente, sem ganância, sem fome, sem disputas. Imagine a grande irmandade de homens e mulheres compartilhando a vida em harmonia.
  • Volte prestar atenção na sua respiração. Retorne ao seu corpo e ao momento presente. Respire profundamente por alguns ciclos.
  • Abra os olhos, retornando ao cotidiano.
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